segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Dias atuais II

- O funeral


Recentemente eu e meu esposo fomos informados do falecimento de uma pessoa já bastante idosa, nossa conhecida, e decidimos ir ao funeral. Como lá iríamos reencontrar muitas pessoas com as quais não tínhamos contato há pelo menos uns 15 anos devido às circunstâncias naturais da vida, respiramos bem fundo e fomos. 
Lá chegando, em meio aos cumprimentos amáveis, sentimos uma certa alegria comedida pelo reencontro com aquelas pessoas, sentimento que nos pareceu ser recíproco, muito embora para uma parte dos presentes nossa presente era totalmente indiferente. 
Em meio aos cumprimentos coletivos, vimos a uma certa distância um rosto que nos é bastante familiar, uma pessoa que sempre nos foi amável e amiga, e a quem tínhamos muito apreço, porém quando nossos olhares se cruzaram ela fechou-nos o semblante imediatamente dando um ou dois passos para trás quase que automaticamente. 
Num primeiro momento pensamos em irmos até ela e cumprimentá-la, mas permanecemos onde estávamos, e foi impossível não observar o quanto a pessoa em questão se dirigia aos demais com a cordialidade e simpatia que sempre lhe foram peculiares, indo falar a todos com proximidade, uma marca registrada sua bem como sua elegância e comedimento, características que trazíamos em nossas lembranças sobre sua pessoa. 
Num dado instante, finalmente, recebemos cumprimentos secos à distância que ela fez questão de manter mesmo em um ambiente tão intimista como aquele, um aceno de cabeça e desvio de olhar e pronto. Neste instante, envoltos à lembrança da simpatia mútua havida entre nós em tempos quase remotos, ameaçamos nos aproximar, principalmente eu de minha parte já lhe dirigia os cumprimentos verbais e simpáticos de sempre indo em sua direção, porém antes que minhas mãos ficassem totalmente estendidas imediatamente sua fisionomia se fechou, virando-me as costas e iniciando um assunto com duas ou três pessoas próximas, dando dois ou três passos em direção contrária à minha. 
Alguns presentes perceberam sua atitude uma vez que estávamos apenas nós em pé, e passaram a encará-la e também à mim, que fiquei totalmente sem graça, tentando disfarçar o constrangimento, já sensibilizada verdadeiramente pelo evento fúnebre, busquei em minha bolsa algo para me apoiar e em minha memória algum fato que pudesse justificar aquela atitude mas não encontrei, sentei-me enquanto meu marido era cumprimentado por dois colegas presentes e iniciava um pequeno assunto sobre as circunstâncias do falecimento em questão. 
Por fim, após as devidas amabilidades aos familiares e conhecidos, passados vinte ou trinta minutos fomos embora para casa sabendo que o enterro seria realizado na manhã do dia seguinte. 
No caminho, enquanto dirigia, meu marido perguntou-me sobre qual seria a justificativa para atitude da pessoa em referência, respondi que não me lembrava de algo, que não havia mesmo nada de nossa parte, que devia ser um equívoco ou alguma possível fofoca (isso ocorre muito em certos ambientes e caso a pessoa não procure resolver a questão fica pendente ad eternum), para encerrar o embróglio chegamos à conclusão de que nada poderíamos fazer a respeito e seria melhor esquecermos o episódio. 
Porém, fiquei pensando nas pessoas que mesmo tendo laços de sangue ou de afinidades no passado dão um passo para trás quando se reencontram, sequer se cumprimentam, completos desconhecidos.
Efeito do tempo? 
A convivência não foi importante?
Como é possível, ao revermos pessoas que já fizeram parte de nossas vidas, que até nos beneficiaram e nós a elas igualmente, seja através de atos, palavras ou presença, não estendermo-nos as mãos mutuamente ou até os nossos braços? 
Quem saberá quando e se nos reencontraremos de novo?



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