segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Diversos

- As pedras que levamos conosco

Nascemos frágeis, pequenos, indefesos e dependentes de nossos pais. 
Enquanto crescemos aceitamos as regras, tropeçamos nas pedras colocadas em nossos caminhos e muitas vezes as ajuntamos e as carregamos conosco como estratégias que desenvolvemos para que possamos sobreviver. Como por exemplo aquela pedra que uma criança recebe do pai colérico que não gosta que ela fale alto ou que tenha opiniões, que dá bronca gratuita quando isso acontece, assim a criança aceita a pedra “faça o possível para não levar bronca do pai”, se tornando alguém que fala baixinho, que não é convincente, insegura. 
Nosso sofrimento como pessoas adultas tem muitas vezes sua origem nessas pedras da infância que recebemos e que carregamos conosco até aqui, seja por costume ou medo. Mas como adultos precisamos reconhecer que essas “pedras” não são necessárias, e refletirmos qual sentido em carregarmos coisas que não nos têm mais qualquer utilidade, que nos fazem mal, nos fragiliza. 
Não nos culpemos, não somos responsáveis por nossa infância e nem pelo que fizeram conosco, muitos pais sequer se dão conta de que o que acontece na infância dos filhos não fica lá, levarão consigo para toda a vida.
(G. Rosenkranz)

sábado, 21 de novembro de 2015

Diversos

A criança que fui chora na estrada.
(Fernando Pessoa)
I
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.
II
Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.
E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.
Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me, Sem que eu perceba de onde vai crescendo.
Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.
III
Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.
Fonte:
Texto: Novas Poesias InéditasFernando Pessoa. 
Imagem: fonte não localizada

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Memórias de menina - Parte II

- Ensinamentos da primeira professora


Seu nome era D. Candinha, ela era professora da pré-escola no Grupo Escolar de Novo Planalto em Goiás, na verdade uma "corrutela" onde todos se conheciam, acho que por isso íamos com alguma frequência em sua casa, onde haviam muitas árvores frutíferas e éramos muito bem recebidos, me lembro que a família dela gostava muito de ouvir música havia uma em especial que chamávamos Moendo Café, o melhor é que ela nos servia deliciosos doces caseiros. 

D. Candinha era uma mulher simples e que tinha muito tato para lidar com os alunos, e eu na minha timidez certa vez tive coragem de fazer-lhe uma pergunta sobre por que haviam "tramelas" ou fechaduras nas portas das casas, era uma coisa que me intrigava na época pois nunca tinha ouvido falar que uma pessoa entraria na casa de alguém sem ser convidado, ela olhou diretamente para mim e me respondeu que era para que tivéssemos cada um nossa própria segurança. 
Não entendi muito bem, mas me senti feliz por receber dela essa atenção. 

A partir de então criei coragem de fazer-lhe perguntas de vez em quando, como por exemplo quando perguntei-lhe para que serviam os pais, ela respondeu que eles deviam zelar e dar segurança aos seus filhos. 
Pensei comigo que essa tal da segurança devia ser mesmo muito importante. 

Algum tempo depois me recordo que houve um eclipse solar enquanto estávamos na escola, todos lá não sabiam do que se tratava (alguém deve estar pensando que isso faz muito tempo, sim faz mesmo) e ficaram apavorados sem saber que atitude deveriam tomar.
Minha professora em sua ingenuidade de pessoa que tinha muito mais bondade, religiosidade e boa vontade do que a sabedoria do magistério, organizou-nos em fila e levou-nos para o pátio, mostrou-nos o céu escuro, e nos disse que naquele dia iríamos todos morrer pois "o mundo estava se acabando".
Não sei explicar o medo que se abatei sobre mim e minha irmã, ficamos em estado de choque e em total desespero, puxei a mão dela para que me acompanhasse, lhe disse vamos pra casa, e saímos correndo da escola, dizendo a ela que era melhor que morrêssemos ao lado da família.

Finalmente lá chegando minha irmã soltou minha mão e correu chorando em direção à nossa mãe que estava na cozinha ao lado do fogão de lenha, entrei e aliviada vi que tanto meus pais quanto irmãos estavam dentro de casa, lembrei imediatamente do que aprendi com minha professora e não pensei duas vezes, fechei imediatamente a porta e passei a tramela, para que morrêssemos todos em segurança.

Dona Candinha, minha professora do pré-escolar



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Diversos

Kim - Simples Demais

Do tempo eu sempre esperei,
Mas nunca que eu encontrei
Aquilo que podia dar sentido
A vida que eu desejei

Por mais que eu pudesse esperar
Sozinho sempre a murmurar
Querendo em algum lugar
Um caminho para trilhar

E eu te encontrei
Foi tão real,
Simples demais
Como eu pude demorar
Pra te encontrar dentro de mim
O Teu amor sempre esteve aqui.

Memórias de Menina - Parte I

Parte I - O lar que eu tive

Nasci há algumas décadas, morei em tantos lugares na minha meninice, muitos deles dentro de uma mesma cidade, muitas mudanças de domicílio. Meus pais não tinham casa própria, isso fez com que vivêssemos sem eira, nem beira, quase como "ciganos", (aliás me recordo de ver ciganos em considerável número perambulando pelo interior de meu estado, às vezes em circos, às vezes apenas de cidade em cidade, de fazenda em fazenda, enganando as pessoas com adivinhações em troca de algum dinheiro ou comida para sobreviver). Não escrevi um diário, mas as lembranças estão vivas em minha memória.
Minha família em frente à Igreja Católica de Novo Planalto-GO, 1972.
Meus pais são do interior de Goiás, se conheceram na escola e se casaram muito jovens, meu pai com 18 anos, minha mãe com 17. Meus avós de ambas as partes eram contra o casamento, não apreciavam a família um do outro, em cidade pequena acontece muito isso, eu acho. Claro que não foi impedimento para que se casassem, ainda que num primeiro momento precisassem fugir de casa. Pelo que eu saiba foi assim: meu pai certa noite jogou uma pedra na janela do quarto de minha mãe que pegou algumas roupas e a pulou, foram até a casa de um tio irmão de meu pai que era casado e que poderia lhes ajudar, ele e sua esposa fizeram com que meus pais voltassem para casa o mais rápido possível. Para evitar que esse episódio viesse a manchar a honra da moça, eles tiveram a obrigação de se casarem e era o que eles queriam. Sem casa e sem acolhida foram morar na zona rural, meu pai filho de dono da única loja de tecidos da pequena cidade, que andava bem vestido e com dinheiro no bolso passou a ser um simples trabalhador em terras alheias, em um primeiro momento foi contratado como professor, inteligente comparado aos demais, mesmo sem haver concluído o ensino fundamental. Estava indo bem mas a escola rural fechou e ele precisando sustentar a família passou a trabalhar de sol a sol literalmente, um lavrador, enquanto minha mãe em casa também não ficava atrás, me recordo dela sempre lavando roupa, cozinhando, buscando lenha, tirando água da cisterna, ouvindo muitos desaforos, já que meu pai era um jovem homem muito mal humorado, adepto de gritos e safanões (como aprendeu na sua meninice com meu avô), atitude que se estendia aos filhos. Aliás, tiveram quatro (duas meninas e dois meninos), um após o outro. Depois de alguns trabalhos em fazendas e chácaras, fomos morar na pequena cidade de Novo Planalto, uma pequena e agradável corrutela, lá meu pai foi açougueiro, pipoqueiro, vendedor de salgados, lá moramos pelo que me lembre em no mínimo seis casas diferentes, até finalmente nos mudarmos para Turvânia, onde seu ofício era o de vendedor de tecidos de porta em porta, ou como era chamado, mascate. E assim meus pais viveram juntos por 11 anos, sem, pelo que sei, ajuda concreta por parte de familiares, os dele moravam em pequenas cidades nas redondezas, os dela em fazendas como trabalhadores rurais. Enfim, aqueles jovens ao decidirem se casar e constituir família foram abandonados à própria sorte.