terça-feira, 17 de novembro de 2015

Memórias de menina - Parte II

- Ensinamentos da primeira professora


Seu nome era D. Candinha, ela era professora da pré-escola no Grupo Escolar de Novo Planalto em Goiás, na verdade uma "corrutela" onde todos se conheciam, acho que por isso íamos com alguma frequência em sua casa, onde haviam muitas árvores frutíferas e éramos muito bem recebidos, me lembro que a família dela gostava muito de ouvir música havia uma em especial que chamávamos Moendo Café, o melhor é que ela nos servia deliciosos doces caseiros. 

D. Candinha era uma mulher simples e que tinha muito tato para lidar com os alunos, e eu na minha timidez certa vez tive coragem de fazer-lhe uma pergunta sobre por que haviam "tramelas" ou fechaduras nas portas das casas, era uma coisa que me intrigava na época pois nunca tinha ouvido falar que uma pessoa entraria na casa de alguém sem ser convidado, ela olhou diretamente para mim e me respondeu que era para que tivéssemos cada um nossa própria segurança. 
Não entendi muito bem, mas me senti feliz por receber dela essa atenção. 

A partir de então criei coragem de fazer-lhe perguntas de vez em quando, como por exemplo quando perguntei-lhe para que serviam os pais, ela respondeu que eles deviam zelar e dar segurança aos seus filhos. 
Pensei comigo que essa tal da segurança devia ser mesmo muito importante. 

Algum tempo depois me recordo que houve um eclipse solar enquanto estávamos na escola, todos lá não sabiam do que se tratava (alguém deve estar pensando que isso faz muito tempo, sim faz mesmo) e ficaram apavorados sem saber que atitude deveriam tomar.
Minha professora em sua ingenuidade de pessoa que tinha muito mais bondade, religiosidade e boa vontade do que a sabedoria do magistério, organizou-nos em fila e levou-nos para o pátio, mostrou-nos o céu escuro, e nos disse que naquele dia iríamos todos morrer pois "o mundo estava se acabando".
Não sei explicar o medo que se abatei sobre mim e minha irmã, ficamos em estado de choque e em total desespero, puxei a mão dela para que me acompanhasse, lhe disse vamos pra casa, e saímos correndo da escola, dizendo a ela que era melhor que morrêssemos ao lado da família.

Finalmente lá chegando minha irmã soltou minha mão e correu chorando em direção à nossa mãe que estava na cozinha ao lado do fogão de lenha, entrei e aliviada vi que tanto meus pais quanto irmãos estavam dentro de casa, lembrei imediatamente do que aprendi com minha professora e não pensei duas vezes, fechei imediatamente a porta e passei a tramela, para que morrêssemos todos em segurança.

Dona Candinha, minha professora do pré-escolar



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