quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Memórias de Menina - Parte I

Parte I - O lar que eu tive

Nasci há algumas décadas, morei em tantos lugares na minha meninice, muitos deles dentro de uma mesma cidade, muitas mudanças de domicílio. Meus pais não tinham casa própria, isso fez com que vivêssemos sem eira, nem beira, quase como "ciganos", (aliás me recordo de ver ciganos em considerável número perambulando pelo interior de meu estado, às vezes em circos, às vezes apenas de cidade em cidade, de fazenda em fazenda, enganando as pessoas com adivinhações em troca de algum dinheiro ou comida para sobreviver). Não escrevi um diário, mas as lembranças estão vivas em minha memória.
Minha família em frente à Igreja Católica de Novo Planalto-GO, 1972.
Meus pais são do interior de Goiás, se conheceram na escola e se casaram muito jovens, meu pai com 18 anos, minha mãe com 17. Meus avós de ambas as partes eram contra o casamento, não apreciavam a família um do outro, em cidade pequena acontece muito isso, eu acho. Claro que não foi impedimento para que se casassem, ainda que num primeiro momento precisassem fugir de casa. Pelo que eu saiba foi assim: meu pai certa noite jogou uma pedra na janela do quarto de minha mãe que pegou algumas roupas e a pulou, foram até a casa de um tio irmão de meu pai que era casado e que poderia lhes ajudar, ele e sua esposa fizeram com que meus pais voltassem para casa o mais rápido possível. Para evitar que esse episódio viesse a manchar a honra da moça, eles tiveram a obrigação de se casarem e era o que eles queriam. Sem casa e sem acolhida foram morar na zona rural, meu pai filho de dono da única loja de tecidos da pequena cidade, que andava bem vestido e com dinheiro no bolso passou a ser um simples trabalhador em terras alheias, em um primeiro momento foi contratado como professor, inteligente comparado aos demais, mesmo sem haver concluído o ensino fundamental. Estava indo bem mas a escola rural fechou e ele precisando sustentar a família passou a trabalhar de sol a sol literalmente, um lavrador, enquanto minha mãe em casa também não ficava atrás, me recordo dela sempre lavando roupa, cozinhando, buscando lenha, tirando água da cisterna, ouvindo muitos desaforos, já que meu pai era um jovem homem muito mal humorado, adepto de gritos e safanões (como aprendeu na sua meninice com meu avô), atitude que se estendia aos filhos. Aliás, tiveram quatro (duas meninas e dois meninos), um após o outro. Depois de alguns trabalhos em fazendas e chácaras, fomos morar na pequena cidade de Novo Planalto, uma pequena e agradável corrutela, lá meu pai foi açougueiro, pipoqueiro, vendedor de salgados, lá moramos pelo que me lembre em no mínimo seis casas diferentes, até finalmente nos mudarmos para Turvânia, onde seu ofício era o de vendedor de tecidos de porta em porta, ou como era chamado, mascate. E assim meus pais viveram juntos por 11 anos, sem, pelo que sei, ajuda concreta por parte de familiares, os dele moravam em pequenas cidades nas redondezas, os dela em fazendas como trabalhadores rurais. Enfim, aqueles jovens ao decidirem se casar e constituir família foram abandonados à própria sorte.  

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