quinta-feira, 9 de junho de 2016

Dias atuais III

Minha força de trabalho


Tenho muitas lembranças da infância, em uma grande parte delas estou na casa dos outros lavando, passando, cuidando de crianças, cozinhando, sempre calada, tímida, retraída, mas sempre solícita e tentando parecer disposta, acho que fazia os trabalhos de casa sem capricho, era apenas uma criança esmirrada que precisava trabalhar, e isso acho que era comum na minha época, pelo menos com as meninas pobres. Me lembro que tinha muita vontade de assistir televisão e comer gelatina. Mas o que eu gostava mesmo era de estudar, de ler e tirar boas notas e meu lema era nunca faltar às aulas, e nunca faltei, mas participava pouco, tinha vergonha.

Assim fui crescendo, trabalhando em casa de família, a princípio por comida, depois, por uns trocados, enquanto estudava o 1º grau (atual ensino fundamental), algumas vezes mudava de emprego, afinal recebia tão pouco que a simples possibilidade de um almoço melhor já era um atrativo a mais para mim.

Tive muita sorte, nunca fui assediada por patrões, mas me lembro que fui assediada por um padre da igreja onde me preparava para a primeira comunhão, eu tinha 13 anos, muito assustada e sem entender direito o que se passava fugi em tempo, mas me lembro de suas palavras melosas e seu bafo de vinho perto do meu rosto, credo! Um dia faço um texto sobre isso com mais informações.

Quando cursava, acho que a 6ª série, fiz meu curso de auxiliar de cozinheira, oferecido à mulheres e meninas por uma fundação social (LBA-Legião da Boa Vontade), foi muito bom, além de aprender a cozinhar melhor aprendi mais sobre higiene e limpeza, mas continuei trabalhando pelo equivalente mensal a mais ou menos uns R$ 100,00 nos dias de hoje, mas já ajudava a comprar cadernos, canetas e até livros (os clássicos romances brasileiros), e ainda consegui pagar um curso de datilografia, no qual fui bem demais e pude sair de currículo na mão procurando emprego de auxiliar de escritório.

Comecei minha vida profissional oficialmente na área administrativa um pouco antes do meu técnico em secretariado, do meu 2º grau (atual ensino médio). Nesse tempo não existia política para contratação de menores, concorríamos com adultos mesmo, éramos mão de obra e pronto, eu era muito disposta para os estudos e o trabalho, no entanto tinha uma timidez que me bloqueava, me impedia de desenvolver.

Vivi minha juventude assim trabalhando bastante, mas mudava muito de emprego por ninharias a mais, permanecia entre 10 meses e um ano e meio, engatava um emprego no outro sem tirar uns dias de folga pra fazer um curso no Senac ou estudar para um vestibular, e o tal seguro desemprego veio a existir tarde (acho que em 1986), primeiro trabalhei como datilógrafa em um escritório de cobrança, depois fui ser escriturária de um banco privado (setor de seguros e depois atendente de balcão), trabalhei em uma agência de publicidade como secretária (onde nem assinaram minha carteira de trabalho), em seguida passei à secretária no escritório de uma rede de lojas de eletrodomésticos que era separado da loja, depois fui auxiliar de escritório em uma loja de equipamentos agrícolas, em seguida fui ser secretária em uma indústria de alimentos, e em seguida passei a ser secretária comercial em uma distribuidora e engarrafadora de refrigerantes e água mineral. Trabalhava muito e era eficiente, mas por ser extremamente tímida e calada, e também essa propensão a mudar de emprego com certa frequência me impediram de crescer profissionalmente.

Eu sou uma pessoa um pouco apática, mas escondia isso das pessoas a minha volta, ao acordar pela manhã me vinha uma sensação de impotência, de impossibilidade perante a vida, sentia que o mundo não era meu lugar, que onde eu estivesse estaria sempre só e infeliz, seja na igreja, na escola, em casa ou no trabalho, não tinha interesses românticos e muito menos de passeios. Quanto a amizades tive muito poucas. Não era dada a desavenças, mas também não era muito sociável. 

Foi com 24 anos que conheci meu esposo quando trabalhei numa indústria de alimentos, ele era auxiliar de contabilidade, tímido e amigável, fomos nos aproximando por afinidade e nos tornando bons amigos, mas nem isso me prendeu nesse emprego onde trabalhava há 4 anos, acabei pedindo demissão porque não recebi aumento salarial e porque não me promoveram ou mudaram de setor. Meu amigo continuou nessa empresa, e acabamos iniciando um namoro e no mesmo ano nos casamos. Dois anos depois tivemos nossa única e amada filha. Esses dois eventos (casamento e nascimento da minha filha) fizeram minha vida finalmente passar a ter algum sentido.

E me vi envolta à vida doméstica, cuidados com minha pequena e meu amado, um período maravilhoso para mim, fui crescendo como pessoa, amadurecendo e compreendendo um pouco sobre a vida, em seguida consegui um emprego de meio período.

Por volta dos trinta e poucos anos decidi estudar novamente, fazer uma graduação, uma licenciatura, pois sempre gostei do magistério. Porém ao concluir o curso não me sentia preparada o suficiente para estar diante de uma sala de aula, me abati, fiquei retraída, não conseguia me ver em um trabalho em que precisasse falar mais, saber tratar de assuntos relevantes, sorrir sem vontade, cuidar de tantas pessoas, e estar antenada com os acontecimentos do país e do mundo. Tão mais fácil continuar sendo a eterna arquivista-mor, a atendente, a digitadora, a telefonista, a auxiliar.

Foi nessa época que fui chamada a dar aulas no ensino médio com contrato temporário de 20 horas semanais na rede de ensino estadual, que em caráter de urgência precisava que alguém assumisse as aulas de História, eu não tive coragem, minha arqui-inimiga insegurança não permitiu, entrei em pânico e não fui.

Mas, acabei participando de uma seleção para um contrato temporário em uma universidade pública como secretária acadêmica trabalhando mais de 40 horas semanais, com um salário menor. Trabalhava muito mesmo, mas eu gostei de trabalhar lá, enfrentei desafios ao lidar com pessoas intelectuais e com tantas atividades ao mesmo tempo. O contrato encerrou, permaneci trabalhando informalmente, num total de 3 anos e 10 meses, e decidi que precisava sair dessa informalidade.

Fui fazer uma especialização em gestão pública, com o intuito de estudar para um concurso público, para continuar com a comodidade que sempre me trouxe a área administrativa operacional. Mas qual? Me inscrevi em alguns concursos, estudei razoavelmente, mas só consegui ser classificada, não aprovada dentro das vagas.

É muito desgastante, sento que não saio do lugar, que não tenho o tal diferencial no mercado de trabalho, que estou envelhecendo, gostaria de passar para minha filha que não sou incapaz, não sou um fracasso, mas me falta motivação, gana, já meu esposo conseguiu ser o que o mundo espera de uma pessoa pobre mas que estudou ou seja uma pessoa que tem um bom salário, ainda bem, pois quanto a mim nada de crescer profissionalmente.

Recentemente pensei muito sobre isso e decidi fazer alguns cursos de capacitação e procurar por vagas de emprego na área do magistério, não por salário porque não paga bem, mas por ser algo que eu gostaria de fazer realmente. Previsivelmente as portas se fecharam devido a falta de experiência, participei de uma contagem de pontos para a rede estadual e dessa vez não obtive pontuação suficiente, afinal quem já conclui o curso há anos e não possui experiência, nem mestrado ou doutorado fica para trás mesmo. Contei pontos também na prefeitura só que para área administrativa, fiquei em segundo, mas chamaram só o primeiro colocado. 

Parti para as seleções e entrevistas em escolas da rede privada, nas quais sempre eu era a simpática senhora que não seria contratada. Uma recrutadora dos sistema S me disse que não poderia contratar-me por eu não ter experiência de um ano como professora do ensino fundamental, afinal são as normas.

Enquanto isso fui fazendo bicos de escrita fiscal, de revisão de texto e de auxiliar de editora, e fazendo alguns cursos à distância na área de educação, História, Filosofia, Português, indo atrás de umas entrevistas em escolas privadas e faculdades, na verdade mais de uma dezena.

No início deste ano fiz um curso de tutoria de ensino a distância e me surpreendi com essa área, que certa forma desconhecia, sempre achei que só houvesse o tutor conteudista, mas em havendo a tutoria de sala ou tutoria a distância como um facilitador para os alunos, eu poderia fazer muito bem esse trabalho com certeza.
Assim, passei a procurar por uma oportunidade, e foi então que vi um anúncio em uma site de uma universidade privada para a vaga de tutor de curso semi presencial e encaminhei meu currículo. Quando fui na entrevista senti uma esperança, pois não é que fui contratada?

E que maravilhosa profissão, onde você se vê envolvida em meio a tanto aprendizado, material didático, cursos, palestras, e alunos em sua maioria interessados em aprender e ensinar sobre o magistério.

Penso no quanto verdadeiramente sempre considerei importante todas as funções que desempenhei ao longo da vida, e no por quê não permanecia por muitos anos, acho que é devido estar procurando algo que me fizesse me sentir bem, me sentir uma pessoa, não uma peça, um parafuso apenas, mas ainda assim, com esse sentimento, eu permaneci muitas décadas fechada, presa, estagnada no mundo que criei ou que me foi oferecido nesta vida.

Percebo que há pessoas que não vêm valor na profissão de tutor, auxiliar de sala, monitor, por não ministrar as aulas, não ter status, por ter um baixo salário. Mas gente, receber pelo trabalho de facilitadora de estudos, de aprendiz, eu pessoalmente vejo como uma grata oportunidade, um privilégio, e vou aprendendo junto com as turmas. Me sinto privilegiada, me sinto importante em poder contribuir para o crescimento dos alunos, sendo uma auxiliadora em suas atividades, crescendo e aprendendo a cada aula, a cada atividade de sala, a cada trabalho apresentado, a cada acompanhamento de seus estágios.

Há muitas pessoas egoístas, que se sentem superiores, cheias de egos inflados, com dificuldade de respeitar e reconhecer que todas as profissões são importantes e necessárias para a sociedade, e perante a esse tipo de pessoa, mesmo buscando fazer o meu melhor eu me sentia muito pequena. Sei que o problema está em mim, que nós que temos que nos valorizarmos e buscarmos nosso melhor, porém se sentir desencaixada no mundo é terrível, te prejudica na caminhada.

Agora, felizmente pra mim e claro, pra minha família também, que me considera uma pessoa capaz mas tão parada na vida, tenho meu trabalho que me trouxe um brilho no olhar um pouco de entusiasmo, conheci algumas pessoas incríveis neste meu caminho e por isso sou agradecida e tenho a esperança de que o mundo possa melhorar a cada dia. E vou sempre estudar porque realmente isso é muito bom!

                               Sala de reunião dos tutores de cursos semi presenciais
                                                                              

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Memórias de menina - Parte III

- Um resumo (mais um)


Vivi com meus pais e meus irmãos até os meus 8 ou 9 anos de idade no interior de Goiás.
Na corrutela (pequena cidade) de Rosalândia meus pais se conheceram, estudaram juntos na escola e logo decidiram que constituiriam uma família.
Foi ainda em Rosalândia (que muitos chamavam de Cerradão) que logo se casaram, e tiveram uma linda filhinha, minha irmã, e logo em seguida eu nasci.
Não demorou muito precisaram se mudar por falta de emprego e de condições mínimas de sobrevivência, ainda mais que em seguida ainda tiveram mais dois filhos, meus dois irmãos que foram registrados em cidades próximas (um em Moiporá e outro em Firminópolis).
Foi por necessidade que acabamos fazendo o caminho inverso, indo morar na zona rural, onde meu pai conseguiu trabalho alternando a chácara ou fazenda de acordo com o período de arado ou colheita de algum tipo de plantação (café, alho, abacaxi).
Éramos muito pobres mas sempre houve uma casinha de chão batido para morarmos e um fogão de lenha para minha mãe cozinhar para nós, enfim era bom porque havia o que comer, mas o trabalho era duro, o lugar era longe e os filhos precisavam ir para a escola.
Acho que por isso meus pais precisaram ou decidiram retornar para a "cidade".
Assim foi que acabamos indo morar na corrutela de Novo Planalto onde havia alguns parentes paternos, avós, tios, primos.
O que me impressionava na época era o fato de meus avós serem separados, meu avô vivia com outra mulher e minha avó morava sozinha numa casinha nos fundos do quintal de uma das minhas tias.
Mas como era de se esperar, nessa pequena cidade precisamos nos mudar de casa diversas vezes, acho que pelo menos umas 5 ou 6 casas diferentes, sempre as mais simplesinhas e com aluguel mais barato possível. Numa delas funcionava um açougue, em outra um bar, depois meu pais passaram a vender pipoca no carrinho (a doce era em formato de bola, uma delícia). Foi nessa cidade onde eu e minha irmã estudamos o pré-escolar, quando já sabia ler e escrever muito bem, por falta de opção andava à procura de papéis jogados no chão, desde jornais velhos a papéis de balas e rótulos de enlatados vendidos no armazém de um tio, era quase uma aventura encontrar variedades de leituras naquela época.
Quando parecia que terminaríamos por lá mesmo nossos dias, eis que por falta de trabalho para meu pai precisamos nos mudar para outra cidade próxima (Turvânia).
Numa fazenda (que não era dela) bem pertinho de Turvânia morava minha avó materna, meu avô já era falecido nessa época, meus tios e tias já haviam se casado, com exceção de uma tia e um tio caçulas que moravam com minha avó, eles tinham quintal, galinhas e um paiol.
Meu pai trabalhava de mascate, vendia roupas e tecidos de porta em porta, principalmente nas fazendas e chácaras da redondeza, ia de bicicleta, morávamos em uma casa que na minha memória parecia ser grande e tinha piso de cimento queimado.
Chegou o dia do aniversário da cidade, um dia festivo, foi montado um circo num local que acho que era o campo de futebol e meus pais nos levaram. Porém lá chegando meu pai foi comprar algodão doce ou pipoca, mas minha mãe que já andava desconfiada dele foi atrás, foi assim que ela o pegou em flagrante com uma mulher, eles tiveram um briga feia, e ela disse que não bastasse ele traí-la com uma vizinha da nossa rua, agora mais essa? Imediatamente voltamos todos para casa ouvindo a briga deles, ela chorava muito e gritava que não suportava mais, não me recordo muito bem se houve agressões por isso prefiro não entrar nesse mérito, me lembro que nessa mesma noite ela mandou ele ir embora e ele se foi, foi de ônibus deixando para trás sua família e sua bicicleta.
Isso foi bem antes de eu completar meus 10 anos, pensei que terminaríamos lá nossos dias, mas assim que meus pais se separaram nossa vida nunca mais seria mesma, nunca mais.

Rosalândia - GO

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Dias atuais I

- A visita

Certa vez, creio que em 2008, avisamos a uns parentes que moram em uma cidade próxima que passaríamos o final de semana lá, coisa que não fazíamos já há algum tempo.

Vez ou outra os recebemos em nossa casa sempre com alegria em revê-los e refeições simples e acomodações, não só por um final de semana, mas por temporadas bem maiores, inclusive para levar ao menos um de seus membros a consultas ou exames médicos, passeios ou visitas à casas de amigos ou familiares residentes em nossa cidade.

Chegamos na casa dos mesmos no sábado, por volta das 14 horas, já almoçados. Fomos recebidos com muita receptividade, boas conversas e as normais demonstrações de carinho. No início da noite fizemos uma compra junto aos nossos anfitriões e decidimos ficar até segunda-feira ao meio dia talvez, afinal era feriado, passaríamos um domingo inteiro tranquilo e feliz, e assim o foi.

Porém, ao amanhecer o dia de segunda-feira, o clima entre eles parece que não era dos melhores, caras fechadas, pouco assunto, vimos que os afetos e saudades já haviam sido devidamente sanados, enfim, um café da manhã com um ar seco, frio e incomodado, após algumas tentativas de nossa parte em continuar falando de coisas agradáveis, retorno zero.

Por volta das 12 horas nenhum sinal de início do preparo do almoço, e nós ali quase os convidando para um almoço fora, porém veio finalmente o aviso nada sutil de que já estava na hora de irmos embora através de um balde de água com sabão jogado bem aos nossos pés com os dizeres: vamos lavar a varanda empoeirada, amanhã a vida seguirá seu curso natural. Houve uma alteração de vozes entre eles e uma conversa que só a eles diziam respeito, como se não estivéssemos lá. 

Entreolhamos disfarçadamente, pegamos nossas coisas com um sorriso meio forçado nos rostos, nos despedimos sem ouvir nenhum pedido de que ficássemos ou de questionamento sobre nossa "repentina" partida, ou pedido de desculpas por suas maneiras, entramos em nosso carro e voltamos pra casa, almoçamos num restaurante de beira estrada. 

Nunca mais voltamos!


Céu matogrossense.



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Dias atuais II

- O funeral


Recentemente eu e meu esposo fomos informados do falecimento de uma pessoa já bastante idosa, nossa conhecida, e decidimos ir ao funeral. Como lá iríamos reencontrar muitas pessoas com as quais não tínhamos contato há pelo menos uns 15 anos devido às circunstâncias naturais da vida, respiramos bem fundo e fomos. 
Lá chegando, em meio aos cumprimentos amáveis, sentimos uma certa alegria comedida pelo reencontro com aquelas pessoas, sentimento que nos pareceu ser recíproco, muito embora para uma parte dos presentes nossa presente era totalmente indiferente. 
Em meio aos cumprimentos coletivos, vimos a uma certa distância um rosto que nos é bastante familiar, uma pessoa que sempre nos foi amável e amiga, e a quem tínhamos muito apreço, porém quando nossos olhares se cruzaram ela fechou-nos o semblante imediatamente dando um ou dois passos para trás quase que automaticamente. 
Num primeiro momento pensamos em irmos até ela e cumprimentá-la, mas permanecemos onde estávamos, e foi impossível não observar o quanto a pessoa em questão se dirigia aos demais com a cordialidade e simpatia que sempre lhe foram peculiares, indo falar a todos com proximidade, uma marca registrada sua bem como sua elegância e comedimento, características que trazíamos em nossas lembranças sobre sua pessoa. 
Num dado instante, finalmente, recebemos cumprimentos secos à distância que ela fez questão de manter mesmo em um ambiente tão intimista como aquele, um aceno de cabeça e desvio de olhar e pronto. Neste instante, envoltos à lembrança da simpatia mútua havida entre nós em tempos quase remotos, ameaçamos nos aproximar, principalmente eu de minha parte já lhe dirigia os cumprimentos verbais e simpáticos de sempre indo em sua direção, porém antes que minhas mãos ficassem totalmente estendidas imediatamente sua fisionomia se fechou, virando-me as costas e iniciando um assunto com duas ou três pessoas próximas, dando dois ou três passos em direção contrária à minha. 
Alguns presentes perceberam sua atitude uma vez que estávamos apenas nós em pé, e passaram a encará-la e também à mim, que fiquei totalmente sem graça, tentando disfarçar o constrangimento, já sensibilizada verdadeiramente pelo evento fúnebre, busquei em minha bolsa algo para me apoiar e em minha memória algum fato que pudesse justificar aquela atitude mas não encontrei, sentei-me enquanto meu marido era cumprimentado por dois colegas presentes e iniciava um pequeno assunto sobre as circunstâncias do falecimento em questão. 
Por fim, após as devidas amabilidades aos familiares e conhecidos, passados vinte ou trinta minutos fomos embora para casa sabendo que o enterro seria realizado na manhã do dia seguinte. 
No caminho, enquanto dirigia, meu marido perguntou-me sobre qual seria a justificativa para atitude da pessoa em referência, respondi que não me lembrava de algo, que não havia mesmo nada de nossa parte, que devia ser um equívoco ou alguma possível fofoca (isso ocorre muito em certos ambientes e caso a pessoa não procure resolver a questão fica pendente ad eternum), para encerrar o embróglio chegamos à conclusão de que nada poderíamos fazer a respeito e seria melhor esquecermos o episódio. 
Porém, fiquei pensando nas pessoas que mesmo tendo laços de sangue ou de afinidades no passado dão um passo para trás quando se reencontram, sequer se cumprimentam, completos desconhecidos.
Efeito do tempo? 
A convivência não foi importante?
Como é possível, ao revermos pessoas que já fizeram parte de nossas vidas, que até nos beneficiaram e nós a elas igualmente, seja através de atos, palavras ou presença, não estendermo-nos as mãos mutuamente ou até os nossos braços? 
Quem saberá quando e se nos reencontraremos de novo?